sábado, março 29, 2014

Caiu o porta-estandarte


É um sentimento que me invade há quase uma semana, apesar de que na verdade, nos últimos quatro meses, tenho estado bastante apreensivo.

Perdeu-se dois dos mais genuínos e verdadeiros símbolos do punk em Portugal.

Rui Ramos/Rocker e João Ribas eram isso e muito mais. Autênticos na sua maneira de ser, simples e directos como só eles sabiam, foram sempre ´anti-sistema` até ao máximo possível das consequências, ao longo das suas vidas.

´Não alinhados` com estas regras e com este governo que nos asfixia (cada vez mais), combativos com as instituições e as convenções que nos rodeiam insistentemente no nosso quotidiano, sempre souberam no seu modo de vida mostrar o seu desagrado permanente.

Mas de um modo bem salutar, a fazer aquilo que sabiam melhor... expressar o seu sentimento em forma de música, de atitude e postura nos palcos, para quem os quisesse ouvir.

Mas quem esteve mais próximo deles, quem teve a felicidade de compartilhar algumas conversas ao longo das suas vivências, sabe que eles ´davam` muito mais.

Autênticos ´monstros da vida`, recheados de experiências inigualáveis, com uma humildade extrema, cada um à sua maneira (e sem o saberem) tornaram-se verdadeiros exemplos de ´como ser, estar e partilhar`, para muita gente.

E o punk é tudo isso. Na realidade, é mesmo isso!

Daí a eu afirmar que o espírito punk (apesar de refutar símbolos e bandeiras) em Portugal é um ´sinónimo` de Ribas e Rui e vice-versa. No dicionário devia constar exactamente isso. No meu, consta.

Mas hoje, estamos todos mais pobres...

Sinto-me órfão e invadido por um amargo de boca que persiste em continuar... estamos mais pobres.

Ainda tenho esperança que mude de atitude... não desisti de pensar que há muita gente que foi influenciada por estes dois elementos, que irá seguir uma linha de pensamento muito semelhante, especialmente os mais jovens que compartilharam momentos de perto, com eles, seja em bandas ou outros projectos...

Mas estamos mais pobres...

Almendra, Manolo, Adolfo e alguns outros ainda cá estão para nos dar mais força e cada um ao seu estilo, perpetuar este sentimento que apesar de versátil, congrega tanta gente, no seu modo de vida.

Certo é que caiu o ´porta-estandarte `por terra... mas há de vir alguém, especialmente malta mais jovem, seguir o exemplo, levantar e ergue-lo bem alto para mostrar que o espírito, esse, não morre...

Mas hoje... estamos mais pobres...







2 comentários:

lp16 disse...

Excelente texto, Billy. E ainda melhor Homenagem.

Estamos, de facto, mais pobres. Porém, permanece bem vivo o legado que Ribas e Rui nos deixaram, assim como espírito de revolta que os caracterizavam...

Felizmente que o estandarte segue sendo erguido por ti e por todos os outros, perpetuando a memória dos que já não estão, e mantendo bem viva a chama dum Movimento...

Punk's not dead.
Up the Punx!

Pedro A. disse...

A boa arte - aquela que mexe visceralmente connosco - é imortal e intemporal. Se actualmente obras compostas por pessoas como Fernando Pessoa, Johnny Cash, Stanley Kubrick, Joe Strummer ou Simone de Beauvoir são apreciadas e assimiladas, acredito que a herança deixada por Rui e Ribas sobreviverá à passagem do tempo. Assim, seja daqui a dez ou cem anos, quando alguém pôr a tocar uma música de Censurados ou Crise Total, tal significará que Ribas e Rui ainda andam por aí.

Só espero que a sensibilidade e inteligência do espírito humano resista ao presente bombardeamento da estupidificação que está a ser alvo, de forma a que a obra destes e outros artistas prevaleça.

Quanto ao falecimento do Ribas, digo somente que morreu um dos meus heróis e deixo aqui as minhas sinceras condolências à sua família e amigos.